quarta-feira, 16 de maio de 2012

Brown eyes

Postado por Rafa às 19:57


Amanhece e o sol nem dá o ar da graça, apenas as nuvens carregadas de alvejante e sabão em pó pra ver se assim conseguem lavar a imundice que está isso que chamamos de mundo.
Posso estar equivocada,mas creio que esse dia foi um dos chuvosos que tivemos durante o mês inteiro.
Quando está nublado eu fico meio assim...meio nuvem,meio planta,meio terra,meio meio. Gostar de sol eu nao gosto,pessoas fedorentas,se esbarrando,calor...argh,só de pensar me dá vontade de mudar pra terras mais gélidas. Só que,que complexa sou eu, estamos tendo essa temporada de chuva e frio e com eles vem o meu desanimo e estranheza.
Já me disseram que não sou uma das pessoas mais normais do mundo,mas hoje,hoje eu estava demais, ao ponto de dizer que o universo estava escondendo por trás das nuvens alguma revelação,que ele não queria me mostrar,mas ansiava para que eu descobrisse..
Indo pro trabalho nessa manhã,em plena 6:50h eu senti como se ninguém estivesse ao meu lado, fiquei apenas observando as gotas de agua cairem no paralelepípedo, como elas mantinham uma sincronia absurda,como seria lindo de se ver luzinhas saindo dos pingos d'agua, tipo guitar hero sabe,a cada nota certa uma luz iria piscar. Parecia melodia urbana tocada por um instrumentista natural. Explicar é muito dificil,deixa eu tentar ir pra proxima,essa voces vão gostar, ao menos eu gostei!
O terminal,assim como os passageiros,são um lixo. Isso mesmo,somos os restos de um animal, aquela alfafa meio mastigada, que por fim é jogada na traseira de um caminhão pra ser usada como adubo. Enfim,voltando ao terminal..ele assim como muitas outras partes da cidade tem buracos e elevações. De onde eu estava esperando o onibus dava para ver uma poça,que sempre que o onibus passava por cima dela,jogava a água suja pra outra poça,um troca troca sujo que só vendo.
Numa dessas vezes eu parei,novamente ninguem estava ao meu lado. Eu fiquei olhando e vi saindo da primeira poça de água suja e indo pra segunda um caminho de óleo,ele escorria para a outra e começava a ganhar forma,ia formando uma espiral quadrada,gotas de óleo soltas nesse desenho,deu uma,deu duas,quando ia dar a terceira volta eu desviei o olhar,fiquei apavorada em ver aonde minha visão imaginária estava indo e pensando com tristeza que nenhuma outra pessoa ao meu redor estaria fazendo o mesmo ou que entenderia se eu contasse. Me sinto meio sozinha no mundo, ou melhor, sinto que a minha cabeça nao consegue encontrar um parceiro de viagens.
Entrei no onibus a caminho do trabalho e fiquei pensando sobre isso,pensava,parava,olhava o tempo,ouvia uma musica,parava de novo e pensava sobre outra coisa,lia uma apostila,parava de novo e pensava no passado,viajava no que eu gostaria no presente e voltava a pensar no que me levou a pensar a tudo aquilo..Eu estava com olhos de crianças, eu via tudo como se fosse a primeira vez,tudo me encantava,tudo me remetia a um mundo paralelo e muito mais interessante do que o de costume.
Ouvindo algo que nao me recordo mais comecei a ver as gotinhas de chuva que estavam na janela do onibus,como elas caiam e vinham mais,elas acompanhavam o instrumental da musica junto comigo ou talvez eu que quisesse ver aquilo.
Por fim,depois de horas cheguei ao meu destino,trabalhei pouco,passei mal,minha tão amada e estimada visão ficou turva,pensei que fosse desmaiar.
Termina o expediente,vou direto pro médico,consulto,faço exames..tudo normal,uma breve suspeita de dengue,mas que nao se confirma. Vou pra casa,peço meu pai um remédio pra dormir. Me lembrei que durante dois dias seguidos eu tinha trabalhado como uma legitima escrava.
Creio que no fim,o que eu pensei ser algo maravilhoso,era apenas cansaço de dias dificeis.
 

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