22:45h
Mais um dia termina! Finalmente, depois de um dia
razoavelmente chato de trabalho eu posso ir para casa. Tomar um bom banho, comer
algo e descansar. Como uma boate em dia de sexta feira, a essa hora da noite
também há uma fila enorme para pegar o ônibus. Penso se compensa esperar alguns
minutos ou enfrentar o frio da noite..
Há tantas pessoas aqui, esse mar de gente sem fim, chego a
ficar tonto com a visão. Olho para os lados, olho pra baixo, olho para frente.
Tem uma garota com olhar distante na fila do meu ônibus, será que ela está bem?
Fones de ouvido, casaco de frio, braços cruzados na frente do corpo como se
para se esquentar ou se abraçar?
Credo, estou sendo estranho, melhor parar de olha-la,vai que
ela também me vê.
A fila anda e não consigo evitar de reparar naquela garota
de não mais de 1,60 cm a minha frente, com os olhos brilhando, mas não de
felicidade. Acho que ela está triste. O nariz avermelhando, a cabeça baixa e a
boca formando uma linha fina. Sento próximo a ela,queria perguntar se está tudo
bem,saber da sua história. Preciso criar coragem! Porém o que eu poderia dizer “Oi,
meu chamo Fulano de Tal, vi que você estava triste,quer contar da sua vida para
um completo estranho? E não se preocupe eu não tenho a intenção de assalta-la
ou assedia-la.” Melhor ficar na minha.
Ponho os meus fones também, mas não ligo o rádio, eu quero
saber o que acontece a minha volta, eu quero saber o que está acontecendo com
ela.
De canto de olho vejo suas lágrimas rolarem soltas. Primeiro
inundando seus olhos e por fim caindo sobre suas bochechas, como se precisassem
sair rápido para dar vazão a mais umas tantas que devem estar por vir. Ela não enxuga
as lágrimas, ela esboça um leve sorriso, como se compreendesse algo, como se o
que quer que seja que ela estivesse ouvindo, fazia parte dela mesma. Será que
foi uma mensagem de voz deixada por alguém dando uma má noticia? Suas lágrimas
persistem e minha curiosidade só aumenta. Porque eu sou assim? Não é da minha
conta... mas eu sinto um comichão, pareço criança querendo pular para o final
do livro pra saber como ele termina.
Ela abaixa a cabeça e parece estar se recompondo,mais
lágrimas,mas agora ela começa a seca-las. Olha pela janela, vejo seu reflexo
que ela olha para o alto, talvez esteja a conversar com Deus, pois hoje só
choveu e não há nada de belo a se ver lá. Ou será que tem? Também olho para
fora, procuro o que ela pode estar admirando e não vejo nada alem de um céu
escuro,apenas a luz do poste a clarear o caminho.
Não vi nem as estrelas e nem ela se levantando e dando sinal
para saltar. Vejo pelo reflexo da minha janela ela com um semblante mais calmo.
Não sei como foi a noite dela, não sei quem é ela e se
alguma hora irei encontra-la novamente, mas aquele comichão que eu sentia agora
me diz que de alguma forma aquela garota tem um sorriso lindo e muito em breve
as nuvens negras sairão do céu e o mundo poderá ver o quão forte ela é. Se após
uma chuva vem o sol e cria um arco Iris, depois de lágrimas vem o sorriso que
aquece o coração.


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